quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Crônica da indiferença(*)


Houve um tempo em que...
...ser escravo era diferente;
...ser protestante era diferente;
...ser mulher era diferente;
...ser negro era diferente;
...ser judeu era diferente;
...ser homossexual era diferente;
...ser diferente era não ser.
Haverá tempo para as diferenças?
Haverá tempo para a igualdade?
Haverá tempo?
 


(*) Para tempos em que se malafaia o diferente.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Hoje Coimbra, amanhã (meia) saudade




Coimbra, assim como Alegre - minha cidade natal -, é uma cidade universitária. A presença de estudantes, repúblicas, festas e, em alguns casos, certa delinquência juvenil, confere a essas cidades um ar especial. À sua história, aos seus habitantes, às suas casas e ruas acrescenta-se a energia de jovens que saíram de suas cidades, deixaram família e entes queridos para trás e foram estar ali alguns anos de suas vidas, com a expectativa de, por meio do estudo, ter um futuro melhor.

Tanta vitalidade juvenil reunida faz a vida em uma cidade universitária um tanto especial e complexa. Os seus habitantes, apesar do benéfico aquecimento da economia local, precisam desenvolver certa tolerância para com os comportamentos transgressores, impulsivos e etílicos dos jovens universitários. Para muitos é a primeira vez que sentem e vivenciam de fato o significado do sentimento de liberdade. Mas para os neófitos estudantes o processo, por razões obvias, torna-se mais doloroso. A vida já não tem aquele suporte até então imperceptível fornecido pela zona de conforto quentinha e aconchegante criada por pais e amigos. Ao transpor a fronteira dessa zona de conforto familiar, tudo passa a ser desafiador e de certa forma hostil.

Além disso, lidar com a ausência de pessoas e coisas pela primeira vez pode gerar desconfortos e saudades indizíveis. Fora o sabor da comidinha da mamãe, que fica latente na memória do desamparado estudante, aguardando as férias para novamente se revelar em profusão de sabores e afetos. Mas ao final, quando a cidade já não parece mais tão hostil e desconfortável, os “crescidos” estudantes são substituídos por novos e amedrontados jovens, que passarão pelo mesmo processo. As cidades universitárias, palcos desses intermináveis ciclos de crescimento pessoal e acadêmico, também crescem e se desenvolvem. Assim como uma família transforma-se com a chegada de filhos e netos, cidades transformam-se com a chegada de uma universidade. Pode-se até ter saudades do tempo em que tudo era tranquilo e sem algazarras. A rua estava em ordem e a casa arrumada. Contudo, ver as crianças/estudantes felizes e saudáveis a correr pela sala/rua é a felicidade de famílias e cidades universitárias.

Essa história de cidades receberem universidades começou há muito tempo. Na cultura ocidental, remonta à Antiguidade Clássica, quando na Grécia a “Academia” de Platão (387 a. C.) e o “Liceu” de Aristóteles (335 a. C.) eram os locais para onde jovens estudantes do mundo antigo iam ter aulas de filosofia e matemática com mestres do pensamento até hoje referenciados e revisitados. Não é sem propósito que se diz que Platão e Aristóteles, em suas incipientes “universidades”, estabeleceram as bases do pensamento que permitem, ainda hoje, compreender o mundo em que vivemos. Na árvore genealógica das cidades universitárias, Atenas é a mãe de todas elas.

Mas é no final do século XI, após um longo período durante a Idade Média – em que o saber ocidental permanecera intocado e “guardado” nos mosteiros católicos – que o surgimento de universidades na Europa começa a estender a possibilidade de acesso ao conhecimento clássico (grego e romano), bem como ao ainda incipiente conhecimento científico, para além dos membros do clero. Começava-se o processo de universalização do saber. E assim, na cidade italiana de Bolonha, no ano de 1088, funda-se a primeira universidade europeia, destinada inicialmente aos estudos de teologia, filosofia e direito canônico. A partir daí, as universidades multiplicaram-se pela Europa e pelo mundo: Paris, Oxford, Cambridge, Salamanca...; e, em 1290, seria então criada a Universidade de Coimbra, a primeira de Portugal. Alguns séculos depois foi a vez de Alegre, que em 1977 passa a abrigar o então Centro Agropecuário da Universidade Federal do Espírito Santo – CAUFES (hoje, Centro de Ciências Agrárias da UFES).

Muitas experiências podem ser vivenciadas em uma cidade universitária. Aqui em Coimbra, vivencio esse processo que, apesar de doloroso, traz-me um crescimento pessoal e acadêmico que percebo aumentar com passar dos dias e meses. Mas uma experiência em especial é comum a todos os estudantes que se dirigem a uma cidade universitária: a experiência da saudade. Vivê-la aqui em Coimbra é ainda mais peculiar.

Primeiro, porque, como falante da Língua Portuguesa, tenho o privilégio de poder expressar esse sentimento por meio de uma palavra que só existe nesse idioma. “Saudade” não tem tradução em outras línguas. Se eu quisesse explicar a um inglês o significado de “saudade” (o dicionário descreve-a como “lembrança grata de pessoa ausente ou de alguma coisa de que alguém se vê privado”), teria que recorrer a um verbo (to miss) e não a um substantivo, inexistente naquele idioma. Em Português, saudade tem existência. É sentida concretamente no peito de quem fica ou de quem parte. Os portugueses sentem-na desde quando começaram a lançar-se ao mar, deixando tudo para traz em busca de um mundo novo. Era preciso dar nome a isso que se sentia, que apertava no coração tanto dos que partiam como dos que ficavam. A glória das “Grandes Navegações” iniciadas no século XV deixou a marca da saudade no coração dos portugueses.

Segundo, porque Coimbra é uma cidade encantadora. Integrar-se à sua história e à sua cultura é uma tarefa inicialmente dolorosa, pois a saudade dos que ficaram ainda bate forte no peito. Mas com a vivência dos dias e meses, a cidade, com seus encantos, ruas e prédios cheios de história, torna-se o espaço de uma nova vida. Uma vida que se vive entre a saudade daqueles que estão distantes e a paixão que só faz aumentar por tudo que aqui se vê e se sente. Uma vida em que o autoconhecimento desvela os véus da ignorância de si mesmo, revelando e genuinidade escondida sob os rótulos e preconceitos cotidianos. Depois de tempo, não se sabe mais quem é o estrangeiro, se você ou se a cidade.

Para cá vieram muitos brasileiros. Notáveis brasileiros, como o poeta Gonçalves Dias, cuja saudade extrapolou o peito e pousou no papel. Escreveu entre os muros da Universidade de Coimbra a “Canção do Exílio”, uma ode à sua distante terra natal. Uma terra de palmeiras “onde canta o sabiá”.

Após um ano aqui em Coimbra, recentemente fui passar férias no Brasil. No dia 17 de julho deste ano regressei para uma temporada de dois meses. Nesse dia senti um misto de alegria por regressar e melancolia por partir. Eu estava partido, dividido. Como que uma profecia a se cumprir, senti no peito a letra do belíssimo fado acadêmico-conimbricense: “Coimbra tem mais encantos, na hora da despedida”. Desde que aqui cheguei também ouço outra frase, que vi escrita num dos muros da cidade: “Hoje Coimbra, amanhã saudade”. Naquele dia, meu coração desejou sentir apenas “meia saudade”.


meia saudade

a parte partida que parte
disse à que fica
em despedida
que sentirá meia saudade

antes de formar o inteiro
partilhavam o vazio
mas a cidade juntou o imperfeito
e fez surgir um amor estrangeiro

a parte partida que fica
doravante, sempre aguardará a outra
para juntas, bifronte, jamais sentirem
a dor da inteira saudade na despedida

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Final mund(ano); hum(ano) novo


Sobrevivemos à previsão de mais um apocalipse. Nem sempre tão preciso em seus prognósticos anteriores, Nostradamus cedeu seu lugar de profeta apocalíptico para uma civilização pré-colombiana da qual o Velho Mundo só tomou conhecimento graças a Colombo e sua trupe de saqueadores do Novo Mundo. Também por conta disso, quase nada sobrou da civilização maia.

Certamente muitos neste mundo nem sabem quem foram os Maias, mas a previsão mal interpretada e descontextualizada do fim do mundo para o dia 21 de dezembro de 2012 ganhou projeção incomum. O assunto reacendeu a velha e cansada discussão sobre o fim dos tempos. De uma civilização que nos legou uma complexa cultura, manifestada por sua escrita, arte, religião, matemática e astronomia – notáveis em razão de seu isolamento no continente americano –, deu-se destaque mundial a um calendário que supostamente previa o fim do mundo.

Mas estudiosos da cultura maia afirmam que o calendário, na verdade, previa o fim de um ciclo e o início de uma nova era, algo comum nas civilizações antigas. Não por coincidência, 21 de dezembro é a data de um solstício, ou seja, quando, dependendo do hemisfério da Terra, começa o verão ou o inverno. Além disso, nenhuma outra hecatombe ou meteoro gigante vindo em nossa direção estavam previstos pela ciência para aquela data. A crendice competindo diretamente com a ciência revela ares medievais na pós-Modernidade. Nada de fim do mundo, apenas a História se repetindo, repetindo, repetindo...

Se lançarmos os olhos para o rastro de nossa História, percebemos outras previsões dessa natureza. Diante de contextos de guerras frias, quentes ou atômicas, sempre houve quem anunciasse “o fim da odisseia humana na Terra”, pois se acreditava que o mundo realmente merecia acabar. Ficara mundano demais ou se distanciara dos desígnios divinos. Nessas épocas, nunca faltaram oportunistas fundamentalistas para proclamar que era chegada a hora do juízo final. Até hoje assistimos, incrédulos, a grupos que se isolam em templos ou bunkers aguardando o fim do mundo. Uns estocam comida, outros cometem suicídio coletivo. A histeria contagia os que não estão preparados para o recomeço, para uma nova vida, para uma nova era. Seja neste ou noutro mundo.

O tema é tão caro à imaginação humana que, previsto ou não, o fim apoteótico do mundo movimenta as artes. Dos filmes catástrofes às letras de canção, inquieta-nos saber sobre nosso comportamento diante do fim iminente ou sobre o que virá depois. Morremos de medo de ter o mesmo fim dos dinossauros. Um meteoro ou um ataque alienígena destruindo a Terra: sim, há vários filmes com esse enredo. Nosso complexo de dinossauro rende pirotecnias cinematográficas, talvez visualmente interessantes, mas quase sempre pateticamente concebidos. Conheço uma exceção: “Melancolia”, de Lars von Trier. Diante do mesmo argumento – de um meteoro prestes a colidir e destruir com a Terra – acompanhamos os últimos dias de duas irmãs. Justine não se adapta às regras sociais, desiste do casamento no dia da festa e sofre de profundas crises de depressão. Claire é mãe, muito “bem casada” e ama a confortável vida que leva em uma pacata cidade do interior. A libertação de uma e o apocalipse mental da outra mostram um fim do mundo subjetivo e, por conta disso, mais complexo e interessante.

As conjecturas musicais acerca do fim do mundo costumam ser mais sutis. O apelo visual é compensado por canções que recorrem a letras metafóricas e a inventivos acordes e melodias. Lembro-me de dois exemplos pitorescos que brincam e nos fazem refletir sobre o armagedom. Assuntos sérios podem render humoradas reflexões.

Em 1938 o compositor carioca José de Assis Valente (1911-1958) compôs a canção “E o mundo não se acabou”. Naquele ano o mundo preparava-se para entrar nas trevas da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Sem ter ainda a exata noção do eclipse para o qual se encaminhava a humanidade, a sensibilidade do artista colocava a questão, cantada por intérpretes do quilate de Marlene e Carmem Miranda. Aos meus ouvidos a canção chegou por meio da interpretação de Adriana Calcanhoto: “Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar / Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar...”.

Angustiado, desiludido, e de certa forma liberto das convenções e limitações morais, o compositor desabafa: “Acreditei nessa conversa mole, achei que o mundo ia se acabar / E fui tratando de me despedir e sem demora fui tratando de aproveitar / Beijei a boca de quem não devia / Peguei na mão de quem não conhecia / Dancei um samba em traje de maiô / E o tal do mundo não se acabou”. Pobre do Assis Valente, que não honrou seu sobrenome e decidiu acabar com o seu próprio mundo em 1958. Suicidou-se em razão de dívidas. Imortalizou-se pela música.

Outra canção sobre o apocalipse é recente. Trata-se da conhecida composição de Paulinho Moska, “O último dia”, de 1995. Aqui o contexto é de término da Guerra Fria. O mundo vivera bastantes anos sob a ameaça de se acabar de um dia para o outro. Com potencial atômico para tal – “A Rosa de Hiroshima” havia deixado seu perfume fétido pelo mundo –, desde o término da Segunda Guerra Mundial até a queda do Muro de Berlim, em 1989, vivia-se o medo do tênue desequilíbrio entre as duas grandes potências mundiais, a então URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) e os EUA. Sem nunca se enfrentarem diretamente, temia-se que uma delas apertasse um simples botão, para que ogivas nucleares e mísseis atacassem a outra. O problema é que essa não era uma guerra interplanetária. Se a guerra esquentasse de fato, talvez houvesse poucos sobreviventes neste planeta.

Como um sobrevivente desta “guerra”, Paulinho Moska poeticamente pergunta: “Meu amor, o que você faria se só te restasse um dia? / Se o mundo fosse acabar / Me diz o que você faria”. Assim como Valente, Moska voa na imaginação e liberta-se moralmente: “Andava pelado na chuva / Corria no meio da rua / Entrava de roupa no mar / Trepava sem camisinha... / Abria a porta do hospício / Trancava a da delegacia”. Mas a comparação entre os compositores para por aí. Paulinho Moska aguentou firme seus fantasmas e angústias e continua, assim como nosso mundo, testemunhando a sucessão de dias e noites.

Vencida mais uma previsão do fim da Terra, esta, como disse Caetano Veloso, continua a viagem “que realizas do nada, através do qual carregas o nome da sua carne”. Quem sabe um dia a viagem se interrompa. A cena clássica de um meteoro vir na nossa direção e acabar com tudo tem impacto e apelo popular. Mas diante do que temos feito ao nosso planeta talvez não tenhamos a “sorte” dos dinossauros. A continuar assim, o fim do mundo muito provavelmente não será instantâneo, mas longo e doloroso. A imagem da destruição apocalíptica bem que poderia ser substituída pela de um mundo-UTI, na qual seremos todos pacientes terminais, doentes de corpo e de alma, sedentos de água, compaixão e fé.

Mas tudo isso são confabulações, filmes e canções. Por esses dias o que acabou mesmo foi o ano. Como milhares de outros astros e planetas, começamos outro ciclo de uma volta ao redor do sol. E com ele, os humanos que vivem neste minúsculo planeta igualmente se repetem. Promessas, planos, dietas; tudo muito firme nos primeiros dias, mas ao longo do novo ciclo anual, muito terá se perdido na poeira cósmica de nossas existências.

Mas não sejamos tão rigorosos, somos hum(anos), falíveis, imperfeitos. Imperdoável mesmo é não (ao menos tentar) cuidar de nós mesmos, dos outros, do nosso mundo, da nossa cidade, da nossa rua, da nossa casa. Perante uma vida mutável e dinâmica, inconcebível é ficarmos parados, como disse Raul Seixas, sentados no “trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”. Ou assistirmos passivos à sucessão de mais um ano, dentro do aconchegante espectro de prazeres e afazeres cotidianos. Para quem permanece o mesmo e não deseja a mudança, o mundo não precisa de previsões apocalípticas. O que não muda já chegou ao seu fim.

Mas se você não chegou ao seu fim, boa viagem! Que a próxima jornada ao redor do astro rei seja da realização de um hum(ano) novo, melhor e atento às necessárias mudanças, pessoais e mundanas. Neste novo ciclo, resta-nos o mundo todo pela frente. Até que um crepuscular meteoro nos acerte e leve nossas almas, uma a uma e no seu devido tempo, para outro mundo. Mas essa já é outra história, para um tempo, torçamos, bem distante de 2013.


Faixa bônus:
vídeos das canções citadas no texto e o trailer do filme Melancolia.